
De que nos fala o Mito de Sísifo? Da morte? Do trabalho? Da disputa entre humanos e deuses? Do castigo dos deuses? Que relação podemos fazer entre o que nos fala esse mito e os processos psíquicos do homem contemporâneo?
A Psicoterapia profunda de C.G.Jung descobriu que há uma relação muito próxima entre os processos psicológicos do homem moderno e a imensa gama de conhecimento que nos foi deixado como herança pelos povos antigos e que podemos conhecer através da mitologia.
Para Jung, o mito é um estágio intermediário entre a cognição inconsciente e consciente, como uma ponte necessária e facilitadora. É como um "tradutor" dos Arquétipos - que formam o psiquismo humano - decodificando-os a partir das mais diversas mitologias do mundo. Podem-se estabelecer muitos paralelos entre os mitos e o que está acontecendo na psique e na vida de uma pessoa ou sociedade.
Esse é o objetivo dessa palestra: entender o Mito de Sísifo à luz da Psicanálise Junguiana, para que possamos ampliar e aprofundar a compreensão desse mito, analisando suas possíveis implicações na psique do homem contemporâneo.
Segundo Brandão (1996), Sísifo era originário da cidade grega de Corinto, um rei que desafiou os deuses e até mesmo a morte. Diz que Zeus observou a filha Egina do deus do rio, Asopo e a raptou. Quando seu pai quis saber sobre o ocorrido, ninguém queria falar com medo da reação de Zeus.
Mas Sísifo percebeu ali uma grande oportunidade e não pensou em deixá-la passar. A cidade de Corinto tinha na época um problema bem sério, não havia em seu perímetro uma fonte de água doce. O povo precisava ir buscar água em lugares distantes para satisfazer suas necessidades. Sísifo conversou com o deus do rio e fez um acordo, dava informações em troca de água. O deus concordou e uma fonte nasceu dentro da cidade de Corinto.
Asopo foi atrás de Zeus e este teve de devolver-lhe a filha que havia roubado. Zeus sabia quem ousou dar as informações e chamou seu irmão, Hades, o senhor do inferno e este mandou a morte, Tânatos, para buscar Sísifo.
A morte com missão precisa apareceu no mundo dos vivos. Geralmente recebida com grande espanto e terror pelas pessoas, ficou surpresa quando o esperto Sísifo a convidou para sentar-se em sua mesa para comer e beber. Foi uma boa conversa com piadas e descontração. Então, Sísifo ofereceu a ela um par de algemas que havia feito. Como já havia confiança e boa vontade entre eles, a morte colocou as algemas no pulso. Só depois de certo tempo é que ficou claro que ela, a morte havia ficado prisioneira de Sísifo.
Um fato desses abala o Universo todo. Nada e nem ninguém morria, pessoas, plantas ou animais. Com a morte no cativeiro haveria muitos efeitos colaterais: como superpopulação e aqueles que estavam doentes permaneceriam assim sem esperança de alivio. A vida sem a presença da morte faz pouco ou nenhum sentido. Até o tempo e a evolução param. Nem a guerra faz sentido, pois os soldados mortos em luta se levantam para agir de novo. Isto também enfureceu o deus da guerra Ares. A morte é um dos poucos controles que os deuses têm sobre os humanos.
Zeus, que é o senhor do Olimpo, percebeu a confusão que Sísifo havia arrumado e mandou o próprio Ares para buscá-lo e levá-lo para o inferno. Desta vez a missão foi cumprida com sucesso. Ares libertou a morte e levou a alma de Sísifo. Mas as coisas não acabaram nisso. Sísifo ainda tinha outros truques para executar.
Ele havia instruído sua esposa para não enterrar seu corpo e nem fazer os rituais fúnebres exigidos pelos deuses. Chegando na terra dos mortos, Sísifo foi reclamar que seu cadáver não havia sido devidamente enterrado. Pediu permissão para voltar para a Terra e castigar sua esposa por causa do desrespeito aos deuses. Hades concedeu a ele três dias para ir e retornar aos infernos. Mas quando chegou na superfície ficou evidente que não tinha nenhuma intenção de retornar novamente. Mais uma vez ele se saiu bem no confronto com os deuses.
Para resolver o problema de modo definitivo, Zeus mandou Hermes, o mensageiro dos deuses e aquele que acompanha as almas dos mortos até o outro mundo. Hermes capturou a alma de Sísifo e a levou para Hades, depois enterrou seu cadáver com os rituais necessários, exigidos pelos deuses e encerrou o assunto. No inferno o astuto Sísifo recebeu o seu castigo: devia rolar por toda a eternidade uma pedra montanha acima para ver em seguida a mesma voltar ao ponto de origem e ele ter que repetir todo o ciclo novamente.
Se tentarmos ver em Sísifo um modelo de homem, ele então será alguém tão convencido de sua força, de sua inteligência e de suas capacidades criativas que se considerará imortal. Morte, mudança, renúncia, reveses, nada disso existe para ele. (KAST, 1997)
A morte é um controle poderoso que os deuses têm sobre os seres humanos. Seus mistérios nunca foram revelados a nenhum mortal que se tenha noticia. E Sísifo ousou desafiar a morte e o poder dos deuses.
O castigo que Sísifo recebeu - ficar rolando a pedra cume acima da montanha infinitamente, apenas para vê-la rolar montanha abaixo justo antes de alcançar o cume - foi em decorrência de ter trapaceados os deuses, fugindo da morte. Os truques de Sísifo estavam alterando a ordem estabelecida das coisas, da vida e da morte.
Vida e Morte. A dicotomia da existência que impulsiona, dá esperança, força para a realização. Vida e Morte, dois lados da mesma moeda; continuidade sem fim? Quando Sísifo desafia Zeus conseguindo a fonte de água para Corinto, está presente essa dicotomia também. Poder do Homem x Poder de Deus. Esse mundo e o outro mundo.
Não podemos ver o mesmo comportamento no homem contemporâneo que desafia a morte com seus avanços tecnológicos, a medicina e suas técnicas de rejuvenescimento? Escravos da juventude e da saúde, com pânico da morte. Não querem morrer, querem vencer os deuses. Mas quando não há a perspectiva da morte, será a vida uma eterna repetição infinita?
Por outro lado, é a repetição de experiências, padrões de comportamento e situações, que permite a tomada de consciência e por conseqüência, mudança e evolução. Mas a repetição, paralisia no mesmo lugar, é uma forma de morte, pois sem possibilidade de mudança, conclusão de ciclos, não há vida.
Portanto, se vida é transformação, Sísifo está morto no seu esforço repetitivo? Mas ele pode ter se vingado mais uma vez porque a cada vez que Sísifo levanta a pedra montanha acima, uma nova esperança renasce de que novo fim aconteça.
Aqui aparece uma nova dicotomia que o mito traz - como saber até quando lutar, persistir, roubar um pouco mais de vida da morte e quando reconhecer que é sensato entregar-se, admitir a derrota, largar a pedra e seguir adiante.
Quantos na nossa sociedade sentem-se sobrecarregados com a quantidade ou qualidade do trabalho; trabalho não prazeroso na maioria das vezes e não tem coragem de largar a pedra e começar uma nova história? Ficar preso numa mesma luta constante, num mesmo objetivo, com a energia focada em uma única direção - seja o trabalho, ou qualquer outro pilar da vida - leva a uma morte em vida.
Talvez o modo como a maioria das pessoas vivencia a si mesmo atualmente, sem refletir e questionar a possibilidade de mudar, seja de fato um trabalho de Sísifo. Quando o homem contemporâneo foca no trabalho sua energia total, acreditando que do dinheiro daí advindo, virá a realização, a felicidade, ignorando outras necessidades de realização individual, coletiva e espiritual, pode ficar reduzido ao vazio da repetição infinita.
Assim o homem da sociedade capitalista é visto como alguém que se coisifica pela moral utilitarista, tendo como meta a redução da capacidade do homem produtor, suprimindo as alegrias e a paixão, condenando-o ao papel de máquina entregue ao trabalho contínuo sem trégua nem piedade. (MAGALDI, 2009).
Mas devemos olhar para o trabalho de Sísifo não apenas como o trabalho externo, mas como o trabalho interno, necessário ao homem para evoluir, integrar-se, individuar-se. No processo terapêutico, por exemplo, há uma repetição criativa de situações, pois a evolução é uma espiral que parece sempre voltar ao mesmo ponto. Mas a cada nova experiência, fica diferente a manifestação, o sentimento, a neurose.
Se Sísifo simboliza o ego e seu trabalho de criar mais e mais consciência, os deuses simbolizam o inconsciente coletivo e neste caso uma reação compensatória destrutiva, o que indica que a atitude da consciência é inadequada, para lidar com a situação.
Sísifo tinha uma relação conturbada com os deuses, de disputa constante, não dimensionando adequadamente as forças que estavam em jogo. Em terapia, ao longo do processo de individuação, quando o ego está isolado ou com uma relação destrutiva com o inconsciente, ele não consegue perceber que está em desvantagem frente à psique objetiva.
Com suas atitudes e comportamentos não adaptados, Sísifo se expôs à ira e vingança dos deuses - ou a uma reação destrutiva do inconsciente. O que fez teve conseqüências não só pessoais, mas também para todos. Sísifo não foi capaz de aceitar os desígnios dos deuses, seu destino. Tentou mudar a ordem da criação e a realidade humana.
Jung ressalta quando de seu confronto com o inconsciente o quanto é importante para o ego aceitar seu destino. No processo de individuação chega-se a um momento crucial, que é o momento do sacrifício. Ao ego é solicitado algo do qual não quer abrir mão. É uma situação angustiante. Há uma luta interna muito grande para abrir mão de coisas consideradas preciosas. Mas se isso não for feito, a evolução não avança.
O objetivo do confronto com o inconsciente é criar a função transcendente que vai unir os dois lados em conflito, procurando chegar a uma cooperação construtiva.
No mito de Sísifo parece-nos que isso não foi possível. A relação entre ele e os deuses era de disputa, de tentar vencer o inconsciente através de truques e artimanhas bem simplistas.
O homem contemporâneo carece de lentes para auxiliá-lo a enxergar os deuses que o rodeiam, e aqui deuses são manifestações arquetípicas com conteúdos energéticos de pólos opostos, que podem ativar a sombra ou trazer a luz para mostrar o caminho da individuação.
A função transcendente nesse caso pode se manifestar como um obstáculo que paralisa o ego temporariamente de seguir o caminho, até então apresentado como único possível.
Sísifo recebeu esses "obstáculos" como desafios e seu ego obsessivo fez com que ele canalizasse a energia para superá-los ao invés de tentar entendê-los como possibilidade de integrar seus conteúdos inconscientes.
Os deuses contemporâneos se apresentam nos menores detalhes, nos processos de sedução que se desdobram em assedio moral, na carreira meteórica que pode trazer um câncer consigo, na desumanização das relações, eliminando todas as possibilidades de respeito. No mito de Sísifo, os deuses Tânatos, Ares, Hades e Hermes se apresentam aparentemente como os obstáculos a serem vencidos, porém na realidade eles representam a oportunidade de redenção se observados de forma intuitiva.
Trechos selecionados da Propositura de Palestras para o evento Holística 2011.
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Ana Luiza Iughetti Feres - Terapeuta Holística - CRT 42969, trabalha com Terapia Floral e Psicoterapia Holística, dentre outras técnicas. |



