
A TERAPIA DE REGRESSÃO E PROGRESSÃO — técnica terapêutica que faz uso de diversos recursos de indução para conduzir o cliente a estados profundos de autoconsciência e, desse modo, induzir "insights" sobre a infância, a vida intra-uterina e a até mesmo transpessoais (informações além da personalidade e livres no tempo e espaço), com o aflorar de emoções reprimidas, lembranças traumáticas e sonhos (para serem trabalhados na Terapia Holística), além de despertar a sabedoria interior e intuitiva no cliente, capaz de orientá-lo na tomada de decisões ou, até mesmo, na resolução de suas questões, possibilitando desbloqueios e harmonia emocional.
Os conteúdos vivenciados durante o processo terapêutico devem ser elaborados conjuntamente pelo Cliente e pelo Terapeuta Holístico, o qual fará uso de aconselhamento, sendo este parte fundamental e integrante da terapia.
Realizada individualmente, utiliza tanto da Terapia Corporal, quanto do Relaxamento como introdução a estados profundos de auto-consciência e, desse modo, permitir o aflorar tanto de emoções reprimidas, lembranças traumáticas e sonhos (para serem trabalhados na Terapia Holística), quanto o despertar de uma sabedoria interior e intuitiva no cliente, capaz de orientá-lo na tomada de decisões ou, até mesmo, na resolução de questões de saúde.
A interpretação do material psíquico aflorado como sendo um fato real ou meramente símbólico é de exclusivo direito do cliente, que o fará de acordo com sua filosofia e crenças religiosas, jamais devendo o Terapeuta Holístico impor seu ponto de vista pessoal. Quer seja interpretado como fato concreto, quer seja considerado uma fantasia do inconsciente, tecnicamente, o que importa é que a vivência proporciona "insights" sob a forma de lembranças ou de imagens simbólicas a serem decifradas em conjunto pelo Cliente e Terapeuta Holístico, o que possibilita apreender na forma de síntese uma série de fatores até então não compreendidos, os quais, via aconselhamento, proporcionam ao Cliente condições de elaborar a vivência em autoconhecimento.
Regressão:
Para os Clientes que trazem à terapia informes de traumas, estes podem servir de ponto focal para o exercício de imaginação, no qual o Terapeuta Holístico induzirá verbalmente a uma "volta" a estas ocorrências significativas, para que as RE-vivencie em ambiente "protegido" de consultório, sendo estimulado a que exteriorize toda a gama de emoções relacionadas.
Por sua vez, existe Clientes que não trazem à terapia informações de origens de seus traumas, o que pode ser contornado induzindo-o verbalmente a que "viage" imaginativamente "voltando no tempo" até o momento de origem do problema. Em alguns casos, artifícios imaginativos podem ser aplicados, tais como, por exemplos, a imagem de um relógio cujos ponteiros girem no anti-horário, calendários com dias, meses e anos retrocedendo e outras adaptações personalizadas que evoquem a idéia de "viagem no tempo"...
Quando bem sucedido o procedimento, manifestará uma catarse, expurgando sentimentos reprimidos, trazendo-os à consciência e exteriorizando-os, comumente em "explosões" emotivas, tais como raiva, tristeza, que devem ser acolhidas pelo Terapeuta Holístico, que prestará amparo e atenção ao Cliente.
Ainda que a catarse, por si só, produza inúmeros benefícios (sensações de alívio e bem-estar, que se traduzem nos aspectos físicos-psíquicos), o processo terapêutico tem sua continuidade com Cliente e Terapeuta Holístico interpretando conjuntamente as informações afloradas, ou seja, exercita-se o ACONSELHAMENTO para que o conteúdo vivenciado seja traduzido para o momento presente, ampliando-se o autoconhecimento e, com isso, a capacidade de ser bem-sucedido nas situações da vida (aumento máximo das oportunidades e minimização das condições adversas), além de conhecimento e habilidade para tomada de decisão.
Progressão:
Para a Progressão, ainda que os procedimentos sejam os mesmos descritos acima (adaptando-se, é claro, o sentido dos artifícios do relógio e calendário a que "avancem no tempo"...), via de regra, ocorre espontaneamente durante as vivências, mas igualmente pode ser induzida, sendo aplicável para casos em que o Cliente esteja sofrendo com as possíveis repercussões futuras de suas decisões (ou falta destas...), comumente gerando ansiedades e temores.
Discussão
Experiências de Freud são utilizadas como argumentos contra e também a favor das técnicas regressivas. Nos primórdios da Psicanálise, aplicou-se a hipnose para induzir os clientes a revivenciar momentos traumáticos, sob o pressuposto de que tal catarse produziria a superação dos efeitos do trauma. De fato, bons resultados foram obtidos; contudo, Freud optou por abrir mão dos métodos hipnóticos, substituindo-os pelo divã, para que o Cliente, em uma posição confortável, fizesse um esforço para lembrar os traumas que estariam na origem de seus problemas. Com o Cliente relaxado, Freud conduzia uma livre associação de idéias, através da qual terminava por encontrar lembranças "recalcadas" e que eram, em tese, a causa de seus distúrbios.
Assim sendo, de acordo com a conveniência de quem historeia, utilizam o Pai da Psicanálise tanto para argumentar que as técnicas regressivas por indução verbal "direta" estariam ultrapassadas, quanto para alegar que ele era adepto e que teria continuado, caso conhecesse outras formas diferentes da hipnose para atingir o objetivo.
De fato, a "aura mística" associada ao hipnotismo pode ter sido um dos fatores que mais contribuiram a que Freud o abandonasse, já que anseiava a que a Psicanálise fosse aceita nos meios "científicos"...
A partir dos anos 70, com o movimento de contra-cultura, a revalorização das filosofias orientais, o crescente interesse pelo esoterismo, gerou-se tamanho movimento (a chamada "revolução aquariana"...) que igualmente repercutiu na Terapia Holística, com a integração de "novas" técnicas nascidas da adaptação miscigenada de rituais religiosos de rememorização de "vidas passadas", com as pesquisas investigativas de casos sugestivos de reencarnações e a retomada das primeiras linhas da psicanálise, o que incluia até a hipnose regressiva.
Alvos de grande curiosidade por parte do público e veículos de comunicação, a popularização da proposta gerou várias correntes divergentes, muitas das quais "pecaram" ao permitir que a crença religiosa/filosófica de seus defensores influenciasse diretamente na interpretação dos conteúdos vivenciados.
Uma das linhas mais conhecidas, é a chamada TVP – Terapia de Vidas Passadas, a qual, já a partir do nome, demonstra que o profissional assume equivocadamente para si próprio, o papel que só compete à religião/filosofia particular de cada Cliente, ou seja, definir que existe reencarnação... Na prática, tal posicionamento em nada beneficiou aos resultados terapêuticos, além de ferir, desnecessariamente, a crença de muitas pessoas, que de pronto se afastam desta forma de terapia. Outro fator que diminui a eficácia da proposta foi a tendência de muitos dos praticante da técnica em contentar-se apenas com a catarse, pressupondo que o alívio decorrente do "descarrego" das emoções reprimidas era o fim em si da terapia, quando na verdade, está mais para o primeiro passo, visto que sobre o material aflorado, muito há o que se compreender e utilizar como fonte para autoconhecimento e, especialmente, em como transmutar a vivência em conteúdo útil ao PRESENTE.
Em muitas vertentes dessa linha terapêutica, os resultados pareciem afastar ainda mais os Clientes de confrontar com seus reais traumas, servindo equivocadamente para justificá-los e até reforçá-los, passando a ser interpretados como inevitáveis e consequências de "lei da causa e efeito".
Um exemplo baseado em caso real: " _ Meu relacionamento com meu marido é muito ruím, mas tenho que me conformar, pois em outra vida, eu o prejudiquei terrivelmente e agora, é minha vez de sofrer as consequências"... Tal dedução seria bastante razoável se originada na religião; contudo, ela foi gerida em consultório terapêutico, por meio de técnicas regressivas... Por meio desta "racionalização", a pessoa em questão procurou tornar "o inaceitável mais aceitável". Enquanto obstáculo ao crescimento, a Racionalização dificulta à pessoa aceitar a realidade e de trabalhar com as forças motivadoras genuínas, o que poderia reverter o sofrimento em que vive.
"Racionalização é o processo através do qual uma pessoa apresenta uma explicação que é logicamente consistente ou eticamente aceitável para uma atitude, ação, idéia ou sentimento que causa angústia. Usa-se a Racionalização para justificar comportamentos quando, na realidade, as razões para esses atos não são recomendáveis".
Nada justifica, no contexto terapêutico, de buscar-se especificamente em "vidas passadas" as respostas aos problemas do presente; pode sim, ser uma alternativa, mas jamais a opção única... Se a vivência, espontaneamente, traduzir-se em "insights" transpessoais (informações além da personalidade e livres no tempo e espaço), tais como experienciar personagens e até épocas distintas da que se tem consciência, é natural e certamente trará ricos materiais a serem trabalhados em terapia. Porém, induzir especificamente a "viagens" antes do período da concepção (claro, salvo honradas exceções...), pode ser fruto de entusiamo exarcebado pela própria filosofia/religião, ou, até mesmo, simples concessões à curiosidade, nem sempre sadia...
Muito mais ético e adequado é que o Terapeuta Holístico trabalhe o conteúdo aflorado, da mesma forma que trabalharia ossonhos (a psicanálise Junguiana, os pós-junguianos e a Psicoterapia Transpessoal fornecem excelentes subsídios para esta finalidade) e essa premissa é aplicável tanto para conteúdo transpessoal, quanto para visualizações de momentos traumáticos situados na vida "atual". Esta postura permite ao profissional trabalhar, independentemente de ser o material aflorado, um FATO em si, ou uma visão simbólica projetada, o nírica. Compete EXCLUSIVAMENTE ao Cliente ter para si, se o que vivenciou realmente ocorreu, ou não; se é "vida passada", ou não; e até mesmo manter-se "neutro" quanto a quaisquer destas hipóteses. O que realmente importa é obter-se um aprendizado APLICÁVEL em seu presente, que amplie seu autoconhecimento e, consequentemente, sua Qualidade de Vida.
A análise trabalha com a realidade que o Cliente "sente" e traz nas sessões. Se ele experiencia uma dor referente a um "fato" da infância, porém essa história nunca ocorreu explicitamente, para a terapia de regressão é pouco relevante, pois, o que conta é que existe um "registro" disso e que gera sequelas ainda atuantes no presente do Cliente. Esse "fato" assume importância real e precisa ser trabalhado nas sessões, independente de sua veracidade ou não. O mesmo raciocínio se aplica ao conteúdo transpessoal: se o Cliente vivenciar a si mesmo como "outra pessoa", quem sabe até em "outras épocas", independentemente de crenças pessoais, a terapia sempre trabalhará o conteúdo como sendo uma projeção.
"Projeção: O ato de atribuir a uma outra pessoa, animal ou objeto as qualidades, sentimentos ou intenções que se originam em si próprio, é denominado projeção. É um mecanismo de defesa através do qual os aspectos da personalidade de um indivíduo são deslocados de dentro deste para o meio externo. A pessoa com Projeção pode, então, lidar com sentimentos reais, mas sem admitir ou estar consciente do fato de que a idéia ou comportamento temido é dela mesma".
Um exemplo, baseado em caso divulgado em um programa televisivo de grande popularidade: a pessoa sofria de fortes dores de cabeça; participou de uma terapia regressiva e viu-se na Idade Média, em uma masmorra, sendo torturada com uma morsa que gradativamente lhe apertava o crânio. Após a cartarse, com a explosão de emoções que a vivência ocasionou, as dores cessaram. Cliente e profissional satisfeitos, deram por encerrada a terapia... Uma crítica construtiva cabe a este procedimento, pois ao invés de contentar-se com a simples remissão do sintoma da dor, poderiam ter sido mais ambiciosos na proposta terapêutica e investigar mais profundamente a questão. Independente de ser ou não "vida passada", a dor está no presente... e isto significa que ela AINDA está em uma "câmara de tortura"... seria sua vida familiar ? seu trabalho ? tudo isso junto ? outra hipótese não tão previsível ? Toda a história aflorada por meio da vivência poderia (deveria...) ser aprofundada, o que pode ser trabalhado com técnicas de associação de idéias, que pode ser realizada na versão "clássica" e/ou sob relaxamento, retomar a vivência e aprofundar-se gradativamente, em sessões seguintes.
"Associações de Idéias: são um Processo intelectivo segundo o qual a mente humana, a partir de uma idéia inicial (indutora), é imediatamente levada a suscitar uma outra, isto em razão de alguma "conexão natural" existente entre ambas. A idéia indutora pode ser representada no caso, tanto por uma palavra, como por um objeto, uma imagem, ou mesmo uma emoção (da qual o sujeito toma consciência) cujo simples aparecimento na mente é suficiente para despertar uma segunda idéia, e esta uma terceira, e assim por diante, num processo praticamente sem limite e no qual, conforme a expressão popular, uma coisa puxa a outra."
Toda a discussão aqui exposta sobre a Regressão é igualmente aplicável para a Progressão. Da mesma forma que espelhamos nosso presente imaginativamente em tempo passado, igualmente podemos projetar para o futuro. Este procedimento é particularmente útil a auxiliar o Cliente na tomada de decisões presentes, já que possibilita ao mesmo, criar mentalmente as possíveis consequências de suas atitudes atuais.
Temática amplamente explorada na ficção científica, é como se existisse incontáveis futuros alternativos, "linhas do tempo", nas quais o indivíduo transitaria consequentemente às escolhas e atitudes do presente.
Em minha prática de consultório, o exercício imaginativo em direção a um futuro hipotético inicia-se sobre uma premissa, comumente, as possíveis consequências geradas a partir de uma escolha presente. Por exemplos: mudar ou não de emprego, casar ou não, separar ou manter o casamento, opções de carreira, dentre as mais comuns ansiedades trazidas em consultório... A proposta é possibilitar ao Cliente, "vivenciar" o que seu inconsciente projeta para o futuro, de acordo com cada escolha possível. Continuando os exemplos: uma projeção de como será o seu dia-a-dia daqui a 1, 2, 3, 4, 5 anos, continuando no emprego atual... Depois, o mesmo exercício imaginativo futuro, perante a opção de demitir-se no presente... O mesmo procedimento nas progressões: casado... ou descasado... E assim, caso a caso.
Algumas idiossincrasias observados nos procedimentos que envolvem a Progressão:
Ao contrário do que ocorre em exercício imaginativos em direção ao passado, o nde espontaneamente surgem vivências passíveis de interpretação (critério exclusivo do Cliente...) como "vidas passadas", nunca encontrei um caso em que alguém experienciasse uma situação de "vidas futuras"...
Clientes praticantes de técnicas de mentalização consciente para "programar seu futuro", comumente se surpreendem com grandes discrepâncias entre o ideal que conscientemente planejam e aqueles traduzidos pelo inconsciente, nas vivências progressivas; por sinal, via de regra, estes é que se "concretizam" na prática...
Resultados
Superando-se os preconceitos, curiosidades e até temores, propagados popularmente sobre tais técnicas, a Regressão induzida mostrou-se mais rápida em trazer à consciência as possíveis origens dos traumas, quando comparada à associação livre freudiana, além de produzir catarses muito mais intensas.
A Progressão mostrou-se ferramenta eficaz em maximizar a capacidade dos Clientes em tomar decisões, possibilitanto viagens imaginativas sobre variadas "linhas do tempo" alternativas, geradas a partir das diversas opções de ação cogitadas. Em muitos casos, as "previsões" projetadas no futuro imaginário produziram insights que geraram soluções não cogitadas a princípio pelos Clientes.
Conclusões
A vinculação desnecessária ao misticismo e religiosidade é um obstáculo ao desenvolvimento das técnicas vivenciais. O Terapeuta Holístico, ao abster-se de posicionamento pessoal, mantendo a neutralidade necessária e respeitando o direito do Cliente em considerar o material aflorado como fato, ou como exercício de imaginação, tem na Regressão e Progressão uma excelente ferramenta terapêutica, capaz de acelerar o processo de autoconhecimento e em transmutar os desconfortos em mais Qualidade de Vida para os Clientes.
Cabe ao Brasil eliminar a iniciativa em superar desinformações, preconceitos e vaidades, promovendo a integração entre todas estas linhas complementares de tratamento, formando Terapeutas Corporais que honrem a sabedoria milenar, da mesma forma que abraçam a modernidade psicanalítica, fazendo justiça a que mais esta modalidade terapêutica seja integrante da Terapia Holística, atendendo a Clientela ciente de que físico-psíquico-social-transcendente é uma só unidade indissociável.
| Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística. (11) 3171-1913 |



